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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Contos Curtos Quase Escuros - O Turco


- E esse quem é? - mastigando a carne dos rojões, bochechas de um lado e de outro, um fio de gordura abrilhantando as comissuras até ao queixo, olhar não muito atento, concentração total no degustar. Levou o copo aos beiços e enquanto o vazava olhava o tecto, um quase agradecimento ao criador por tão bela iguaría. Bateu o fundo do copo com força na mesa e voltou ao prato.

- Encontrei-o no meio de umas coisas velhas, lá para o sotão. Achei que dava pinta aqui ao tasco, não achas? Parece que era turco e até já me disseram que se finou aqui, aqui mesmo (e batía o indicador no tampo da mesa) e olha, tal como tu estás agora, assim ele bateu as botas! - arqueava os sobrolhos e abría muito os olhos para que a história se tornasse mais credível.

- Que conversa é essa? Também comía rojões? Não me agoires! Isto está a saber-me pela vida e ainda tenho muita estrada para fazer! Querem lá ver?! Deixa-me comer descansado e ao turco deixa lá, já se foi, já se foi! Onde está não come disto!!! - agitava a mão grande e sapuda como uma onda a ir-se. Voltou a encher a boca dos nacos, deixava os bocados deslizarem goela abaixo depois de lhes sorver todo o suco condimentado.

- Não é isso, homem! Parece que o turco na gula de encher a boca engasgou-se e foi desta para melhor! E até dizem que deitou uma maldição aqui a esta mesa... Cá por mim, esta história até chama clientes...

Abriu a boca exibindo o bolo alimentar, a cabeça atirada para trás, a gargalhada atafulhada no rojão, as lágrimas espreitaram no canto dos olhos, emitia um AHAH, UHUH, e baloiçava-se para trás e para a frente, vermelho, escarlate e de repente um arfar, um sufocar na carne que lhe recheava a boca, pendurou ambas mãos nos colarinhos do outro, agora aflito e depois despencou de olhos fechados para grande pânico do amigo.


- Eu não disse?! Ai! E agora? E agora?


(Silêncio)


- Caíste que nem um pato! O turco, não é?! Deixa-me rir! Se visses a tua cara! - disparou numa risota ainda maior, ainda mais sonora, ainda mais balouçada. A cadeira resvalou, sucumbindo ao peso do seu hóspede caíndo desamparado de costas, um som de abóbora a tombar.


- Anda, levanta-te! Pára lá com isso! Achas que sou parvo e caio duas vezes seguidas? Olha os rojões a arrefecerem...

(in Contos Curtos Quase Escuros, C.G.-16/01/2008)

22 comentários:

papagueno disse...

Moral da história?
Não se brinca com coisas sérias, pode atrair o azar :)
Bjks

ET disse...

It's Bloody Delicious!

Best Regards from my Crypt,

poetaeusou . . . disse...

*
recordei,
Mustafa Kemal Ataturk,
,
não sei o porquê . . .
,
conchinhas,
,
*

M. disse...

ah Hilária, quase me convenceste que era o fantasma do Turco!

Mateso disse...

Pois...quem semeia ventos colhe tempestades, lá diz o velho ditado.
Bem urdido, sim senhora. Prosaico q.b.
Beijinho.

Aspásia disse...

OLHA, NÃO SE ACREDITA PERO QUE LAS HAY, LAS HAY...

NÃO SEI SE FOI O CASTIGO DA GULA, SE DE TER ASSUSTADO O AMIGO, SE A MALDIÇÃO DO TURCO, SE TUDO JUNTO...

UMA CENA DE TEATRO TRAGICÓMICO MUITO BEM PORMENORIZADA COMO JÁ NOS ACOSTUMASTE!

BEIJINHO ALLA TURCA (SALVO SEJA)...

Joanne disse...

História bem engrançada =D

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

Pois, quase frios... os rojões. Bem criativo o teu conto.

És surpresa atrás de surpresa com a tua capacidade criativa.

Beijinho.

impulsos disse...

Um dos sete pecados mortais, aqui muito bem descrita neste pequeno conto,que li com muito prazer!

A maldição do turco...

Beijo

marisa disse...

Fantástico! Desde a linguagem ao "humor negro". Obrigada por uns minutos com boa prosa (como sempre).

marisa

gasolina disse...

Papagueno,

Será?
Será que existem maldições?

Cenas dos próximos capitulos...

Beijinhos

gasolina disse...

ET,

So nice to have you here again!

Kiss for you, my friend!

Glad you liked it

gasolina disse...

Poeta Eu Sou,

Bela referência!
Mas este turco não fundou nada, só atemorizou!

:~D!

BEI/de MARÈ

gasolina disse...

M,

ahaha!

Objectivo conseguido!
Se consegui que a M (não se pode dizer a palavra) fosse enganada por breves instantes!

Beijo

gasolina disse...

Mateso,

Muito obrigado!

Fico contente que te tivesses divertido!

Beijinho no Azul

gasolina disse...

ASPÁSIA,

TERÁ SIDO PESO A MAIS?
TERÁ SIDO O CARPINTEIRO QUE FEZ A CADEIRA DE FRACA QUALIDADE?

BEIJOS AMIGA JARDINEIRA

gasolina disse...

Joanne,

Muito obrigado.

Esperemso que o próximo conto não perca a graça... negra.

gasolina disse...

Tchivinguiro,

A vingança é um prato que se come frio...

Sería?

Beijinhos

gasolina disse...

Impulsos,


Muito obrigado pelas tuas palavras.
É sempre um prazer ter-te aqui no Árvore.


beijo

gasolina disse...

Marisa,

Obrigado a ti por apareceres. E pelos teus comentários sempre correctos.


Muito obrigado.

Sony disse...

...Ai Gas...estou cansada!
lol

Vim só deixar-te um beijo!
Um beijo saudosoooooooooo!!

p.S-não tenho escrito e o pior é que nem tenho lido, algo que gosto tanto!

Um suspiro de uma formiga cansada...mas feliz!!!


...Mas cansada...
beijo Minha Gas.
Formiga Sony

gasolina disse...

Sony,

Uma formiga cansada?
Essa não acredito!

Muito menos em ti, Formiga Rabina!

Beijos, não pares de escrever, escrever é preciso!

Beijo grande para ti.