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sexta-feira, 13 de julho de 2018

(Ainda sem ) Paz





deixei de falar sobre estórias, livros, palavras que falam de palavras mágicas, bailarinas, coisa de palco, lançar os olhos no brilho do que não vejo vendo apontando no bico do sapato ou na ponta da caneta, deixei secar a tinta permanente na última carga e não gastei um cêntimo mais a comprar outras, sento-me no lado do cimento dos prédios e deixo o rio ser água, sem cor, sem manto, sem estrada, levo-me e regresso sem suspiro e sem lembrança, apago luzes que teimam de quando em vez fundirem páginas de clarões onde corro a azul e letras maíusculas se encavalitam falando de generosidade, liberdade, uma invenção que desconheço, não sei que dizer, não percebo o que dizem, não comento sentimentalidades que possam trair a voz ou devolverem perguntas sobre o que sinto ou sei, ou tenha sido ou perigosamente, tenha sentido ou até feito, não fiz nada e do sentir deixei-me, nem para estórias acordo, caio para dentro de mim e não sei porque não acho, porque não sei o que procuro.




quinta-feira, 12 de julho de 2018

Não é novo. É respirado.

Não me fui.
Não desapareci por doença ou falta de apetite à letra, de novo o tempo à esquina à minha espera para conversa pelos cotovelos, deu-me largueza para o lamento, para a lamúria, para as noites em que o queixo afundado abafou na fofura dos tecidos as vozes pertubadoras, calaram-se, fiquei sózinha, tão sózinha que as memórias de miados, latidos, chamados e nomes pequenos secretos se fizeram em companhia.
De novo a multidão.
A sórdida lembrança de coisas que se querem esquecer à força para não doer e se pedem para nunca esquecer, o comentário enrolado das palavras desenhadas na pressa num canto qualquer de papel, lábios apertados de boca cheia de velhos sentires, novos sentires, eu uma outra de casca rugosa, mas tanta fenda.
Dou por mim aqui, sem tempo. Foi-se-me. Que talvez nas noites de rolar para lá e para cá, à espera de um silêncio ou de ruídos conhecidos [seriam uns ou outros?] a esquina fosse uma metade que eu não quisesse escutar mais. Doia de mais escrever.
De novo a multidão.

Há quem regresse, respiro e estendo a palma apanhando a mão na direção da minha, outros não voltarão. Doeu não escrever.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Instantâneo - Episódio dezoito


 
 
Um gole, dois, três, meia chávena bebida e os olhos perdidos na folha branca, imaculada ausência, as palavras desfilam lentas porém certas num ritmo bom de as apanhar. Se quisesse. Por agora derreto-me por um qualquer sitio de não estar, vou bebendo sem descolar os beiços da louça a golinhos pequenos um instantâneo que será mais que isso, rápido no consumo, sinto o morno da aguadilha a descer pelas goelas e a tubagem à força de ser enganada agradou-se da miseriabilidade. Os gatos nos seus postos aguardam o inicio das manobras e nada, nem brincar com o elástico no pulso a entreter tempos de palavras que não chegam, não espero por elas ao menos, agarro-me à asa da caneca como salvação num prazer tão grande como uma página cheia a verbo fecundo. O fundo. Poupo o gole já quase frio, quisera que o cão viesse junto a mim, de cauda felpuda que não tem, não vem, penso no outro, bebo restos, afago o único gato que está. É tudo de fingir, até o café bebido rápido para não lembrar que é instantâneo.
 
 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ciências da natureza


 
 
Numa manhã, noite cerrada pela mudança de hora e enquanto esfregava as mãos surpreendido pelo frio à espera de boleia, viu um a riscar o céu amarelado pela luz artificial como um projéctil negro, um só traço a direito que desapareceu a caminho do breu. Depois, um par que ainda pipilou, notou-lhes um tom violento de vermelho nas asas quando florearam em rápidas piruetas em torno de um arvoredo, subiram, voltearam e de novo o negro, muito negro num fio único até a vista se tornar pouca e haver nada.
A seguir um silêncio de pessoa só.
E num susto toda a árvore que ombreava o candeeiro público pareceu erguer-se das suas folhas e subir aos céus como uma bola agitada e ruidosa, um alerta para o perigo eminente.
Agachou-se no medo súbito para logo se recompor, a vista ondeou ao compasso do bando que de um lado para o outro se moveu como uma massa mole mas ordenada, um desenho que tanto se alongava como se compactava até se adensar num brilho profundo de negro. Desapareceram rápido.
De novo o silêncio.
Depois o coração. Ouvia-o bater ritmadamente acelerado até que se abrandou numa quase solidão.
Um pardal saltitou por perto, debicando na noite invisibilidades enquanto um pio ou outro esmagavam o escuro.