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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Contos Curtos Quase Escuros - Frutos de Inverno



Aníbal Castanha nunca fora bonito. Aliás, a formusura era coisa que ele próprio só assistía nos outros. Demasiado baixo, demasiado gordo em tudo semelhante a um peão, fora na meninice o fruto mais apetecido da chacota dos seus colegas e na adolescência a exuberância do acne mordiscara-lhe a face, esburacando-lha tanto quanto à alma.

Do sexo feminino apenas atingira distância e já na idade adulta a calvície fez-lhe tombar as últimas lágrimas.

Esmorecía os seus lamentos nas linhas muito pensadas, apagadas e emendadas de versinhos lamuriosos, em que se personificava no abandono da bela amada, qual Cyrano escondido na palavra.

Enchía páginas e páginas de cadernos de duas linhas, a letra muito aprumada, a mão enxuta de suores que lhe tomavam o sentir no lenço branco apertado no aperto da solidão. E por anos versejou e por anos enviou as suas pequenas crias a várias editoras que de resposta lhe devolveram o silêncio.

Porém um dia, a mão transpirada deixou caír o auscultador do telefone ao ouvir do outro lado uma voz fininha que o convidava para um serão literário, uma tertúlia vasta em que a sua obra a contento sería declamada para uma assistência dada a estas coisas singelas.

Aníbal Castanha apressou-se na selecção dos seus melhores trabalhos e numa noite de Inverno frio e molhado lá apareceu no Grémio, os pés no desconforto do guarda-chuva escasso para água tanta, a baínha das calças enlameada e pesada. Mas sentía-se feliz.

Apresentaram-lhe a diseuse, uma mulher leitosa de veias muito pronunciadas e que lhe sorriu encantada demorando a mão na sua. Aníbal Castanha sentiu-se muito, muito feliz.

As luzes baixaram o seu tom garrido e a mulher numa voz limpida projectou os primeiros versos.

Ouviram-se alguns suspiros, um tossicar. Aníbal Castanha ouvía anjos. Parecía-lhe tão maior a sua poesia doméstica, os seus desamores uma dor suprema, bela.

Sentiu dentro de si um ardor, um fogo que lentamente o tomou desde o abdómen até às orelhas, uma dormência no braço esquerdo, a boca seca. Desde muitos anos atrás chorou lágrimas profundas e quentes, as mãos aguaram-lhe como nunca. Tremeu e pensou que nunca fora tão feliz na sua vida.

A sala fez-se numa ovação única, alguns de pé, a declamante chamou o artista, o poeta, uma e outra vez.

Mas Aníbal fechara-se como um fruto de Inverno e nunca chegou a escutar as palmas.


(in Contos Curtos Quase Escuros, C.G. -15/01/2008)

16 comentários:

Méon disse...

Logo pela manhã, Aníbal Castanha instalou-se aqui e por aqui ficou.
Que belo conto! Curto, tão sugestivo!
Talvez porque há em mim um pouco (ou muito?...) do Aníbal, simpatizei com o homem!
Pois bem, Gasolina, já me vou habituando à sombra da tua árvore...

Dias disse...

Belo conto miuda.

Permite-me extender o aplauso até ao hoje, pode ser que assim extendido um dia o Anibal o atravesse e oiça tudo o que merece.

Beijo deste seu admirador escuro.

*

Tchivinguiro: onde nasci. disse...

Agradavelmente belo mais este teu conto - a provar que a beleza não tem medida no AMOR, pois este é para todos.
Importa o que cada alma leva dentro, não fora.

Beijinho.

samuel disse...

Terrível... de tão bem contado.

M. disse...

Terminadas as palavras saídas da sua pena tantos anos e emocionado no meio da ovação do público, tombou Aníbal Castanha precisamente na altura em que o tinham elevado ao auge e o fado lhe pronuniou a sua rigorosa sentença. Porém vibrou intensamente este seu momento de glória.

Tens o dom de expor dramas de uma forma dulcíssima. Perfeito!

Um beijo

gasolina disse...

Méon,

Todos nós temos um pouco do Aníbal: o sonho.

Volta sempre que queiras.
Para ti há fruta, sombra e palavras.

gasolina disse...

Dias,

Dobro-me leve perante o seu elogio, o aplauso é justissimo do Castanha, mas como ele já não está cá para ouvir...

Um beijo desta sua,

gasolina disse...

Tchivinguiro,

As coisas mais belas nem sempre são as visiveis ou as que ofuscam.

Na singeleza do amor, seja à palavra seja a outrém nada é passível de ser copiado, pois é tudo de "dentro".

Um beijo

gasolina disse...

Samuel,

Muito obrigado!

Adorei esse "terrível"!!!

Abreijos!
(acho que pegaste a moda...)

gasolina disse...

M,

Deixas-me sem saber o que retorquir... melhoraste o Aníbal Castanha, disso não há dúvida!

Obrigado M de Mestra!


Beijo para ti

Victor disse...

Querida Gasolina
É encantador ler os teus escritos, tão sentidos, tão realistas... autênticos poemas de vida.
Beijinhos.

Aspásia disse...

O ACASTANHADO ANÍBAL PELO MENOS AINDA TEVE O SEU MINUTO DE GLÓRIA!
MAIS VALE BRILHAR UM MINUTO QUE ACASTANHAR TODA A VIDA...

BEIJINHO MARRON

Mateso disse...

Aníbal- ouriço cujo fruto é lindo, a castanha.
O Aníbal ouriço-castanha-paladar-de-sonho-escondido, é simplesmente uma brisa de inverno.
Beijo.

gasolina disse...

Querido Victor,

As tuas palavras engrandecem as minhas linhas, muito obrigado.

um beijo

gasolina disse...

ASPÁSIA,

MOMENTO FUNESTO!
POIS SE NEM ÀS PALMAS CHEGOU A ASSISTIR!

BEIJONHOS PARA TI EM ARCO-ÍRIS

gasolina disse...

Mateso,

Breve e frágil como a vida.
Afinal a alegria acabou por ser a sua foice.

Beijos