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sábado, 26 de janeiro de 2008

Apanha-me!


Cheirava a terra molhada, suor, bosta de cavalo e aquele envinagrado do sangue que sempre parece deixar um rasto nas narinas mesmo que se fuja para longe.
Dói-lhe o braço, o ombro, a mão e nem mesmo o calo de anos de treino e a protecção de couro fino para que não perca a sensibilidade do fio, após tantas horas de disparo, consegue evitar o corte junto ao encaixe das articulações do dedo médio. Mas não pára, não baixa os braços, não se rende, incentiva os outros.
Já passaram cem anos e hoje é só mais um dia e não será neste que se vai entregar. Os gemidos e os gritos da dor lenta da morte não o afligem, habituou-se a eles, são os sons de campo de batalha, tão normais como o cantar da cotovia na sua aldeia. Aqui, em terra estranha e inimiga só existem estes cantares e até destes precisa ouvi-los para não esquecer, para sentir a raiva que lhe dá o poder de erguer o arco do seu tamanho, mirá-lo na extensão plena da sua corda fina e derrubar mais um francês acobardado naquela moita.
Fechou o olho esquerdo, o cotovelo direito ponteou elevando-se à altura do ombro, sente o fio tenso como uma corda da harpa de um bardo raspar-lhe o queixo, o nariz, a mão firme na direita do seu braço. Solta e ainda ouve o silvo da flecha cortar o ar, os gritos, o relinchar. Não sabe se acertou no alvo mirado, sentiu uma pancada na nuca e viu muito rápido junto à cara o verde revolto e espezinhado numa poça de sangue, depois tudo escuro.
Ouve sumido um linguajar que não entende, o chão a rodar, a cabeça próximo dos pés, cheira a fezes e urina, sangue e carne podre, tem terra na boca, nos olhos, sacode a cabeça e cospe. Está sentado no chão com mais companheiros, todos amarrados, foram apanhados, agita-se no frenesim da besta caçada e procura desesperado libertar-se do cativeiro, pedem-lhe os outros que seja digno e honrado nesta hora, que muitos sabem o que acontece aos arqueiros aprisionados. Ele também sabe mas não quer ser mais um.
O companheiro do seu lado é levado pelos cabelos até um tronco aparado e vermelho. Assentam-lhe a mão direita recolhendo os dedos apenas sobrando o médio. Resigna-se, cerra os dentes, sabe que chegou a sua hora e invoca o rei. O som seco do carrasco a separar o dedo poderoso cala por uns segundos o tempo. Empilham-se dedos roxos e cobertos de insectos ao lado do tronco. O arqueiro desfalecido é arrastado para um canto.
Chegou a sua vez, retiram-lhe as cordas para libertar o braço na amputação que o desonrará da sua linhagem. Chuta, esperneia, morde a mão respingada de sangue inglês do carrasco, cabeçeia o seu opressor, urra e na surpresa de todos apanha a oportunidade e corre, corre, corre muito que a morte vem lá.
Sente-os no seu encalce, cheira-os mas ri como um louco e antes de desaparecer no nevoeiro que entretanto tombara, volta-se para trás e grita APANHA-ME! espetando bem alto o dedo médio calejado.

10 comentários:

Dias disse...

Perdeste a oportunidade de o trespassar com uma flecha... ou de colocar varios dedos em riste (os apanhados e o por apanhar)... mas falo do que poderia ter sido quando ante mim tenho mais um optimo pergaminho do que é, e o que é é mais uma porção de Arte by Gas, e quando nessa tua Arte te amparas no extra da enorme bagagem coltural com que nos ensinas, a Arte torna-se também licção, e este seu aluno segue-a na fila da frente, com os olhos do seduzido.

Amo-te escritora, beijo imenso

António Sabão disse...

Boa! ;)

M. disse...

Derrotou-os a todos. Riu-se deles. E eu também.

Beijo

gasolina disse...

Dias,

Há imensas coisas engraçadas que sobrevivem no dito e no acto até hoje e no entanto, na sua grande maioria desconhecemos ou nem nos questionamos como surgiram.

Afinal este dedo erecto tem muito de sofrido desde a Guerra dos Cem Anos até à intenção ofensiva dos nossos dias.

Muito obrigado pelo elogio e pela declaração.
Faltam-me palavras para lhe corresponder à altura.

Mas ofereço-lhe um beijo, desta sua,

gasolina disse...

António,

Que ilustre visita!

Muito obrigado!

gasolina disse...

M,

Eheheh!
Até eu, M, até eu!

Beijo grande Mestra.

santiago disse...

pareceu-me estar lá...


senti...

Sony disse...

Hahahahaha
Confesso Gas que ainda não li o texto, Fico-me com uma valente gargalhada devido a foto!

CATCH-ME IF YOU CAN!
Hahahahahahhaha!
Só tu para me fazeres rir!
Lol
dorei essa foto aqui "espetada"no teu blog!
Beijo
Sony

gasolina disse...

Santiago,

Isso é o que de melhor eu podería ouvir.

Muito Obrigado.

Beijo para ti.

gasolina disse...

Sony,

Esperemos, caso venhas a ler o texto, que este te arranque tantas gargalhadas quanto a imagem do médio erecto.

Um beijo, Formiguinha