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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Repete

O rastilho comeu-se rápido numa chama pequenina avançando até ao ponto a destruír. Quando chegou lá cumpriu o seu destino. O estrago que causou foi tamanho que nem a dor das lágrimas foram suportáveis e o que podía escoar-se no alivio desse sal ficou-se a entupir pela garganta, pelos olhos, pelo peito, até pelo ventre e genitais.


Deitou-se de lado no desespero de ser dia, os joelhos a pressionarem o coração como um garrote que impede a hemorragia, a boca semi-aberta para respirar sem fazer ruído e acordar os outros sentidos. Acabou por adormecer.


Estava descalça. Viu-a pelo reflexo do espelho e chamou-a com um dedo. Depois abriu os braços, pendeu a cabeça, abraçou-se, tombou, rolou, fechou-se de joelhos junto ao peito. Repetiram juntas, abriram os braços, penderam as cabeças, abraçaram-se, tombaram, rolaram e ficaram a par de joelhos junto ao peito. Repetiram vezes sem conta e quanto mais o cansaço se fortalecía mais leve era o contacto dos pés descalços no soalho. Parecía um sonho.


Quando acordou a noite já escorría pelas paredes e os fantasmas fazíam a sua rotina. Rolou para o outro lado da cama, ergueu-se, abraçou-se a si mesma, olhou o tecto, abriu os braços e chorou.

4 comentários:

tiaselma.com disse...

E chorando, depurou a dor. Espero.
E, ansiosa, aguardo.

Beijocas saudosas.

Gasolina disse...

Tia Selma,


Exorcismos.


Mesmo que a folha do espelho falte hão-de haver paredes onde se riscam palavras e se inventam passos. Até ao tecto.

Em frente, de braços abertos.



Beijo a ti.

Há azul, sol e calor.
Apetecía-me chuva.
Nunca estou satisfeita... :~D

Papoila disse...

Emoções que nos desgastam, rastilhos que nos fazem sucumbir muito mas muito rápido.

Beijo
BF

Gasolina disse...

Papoila,

É verdade.

Mas quem quer nada sentir? Eu não... Prefiro saber o que é dor para poder arder até ao riso.


Abraço-te Papoila dos Girassóis.