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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Aguarelanja

Os calcanhares íam batendo a ritmo incerto no muro alto, era bom sentir a aragem nos tornozelos e na curva das pernas, os joelhos quentes do Sol que baixava devagar, até os olhos se feríam menos na claridade rosada e dos sons a passarada ensurdecía pelo regresso aos ninhos nas árvores.
Depois, eles os dois.
Sem conversa.
A boca estava ocupada a cravar-se na casca das laranjas e a ponta da lingua a esfuracar no miolo doce e sumarento enchía-lhes a mente sem pensarem noutra coisa. Depois disputaram a lonjura a que conseguíam cuspir as cascas e isso tornou-se o mais importante. Quando já não havía cascas lançaram seixos.
O Sol escondeu-se, pularam para chão firme, meteram as mãos aos bolsos, apalparam o tamanho do sexo pequeno e um deles a fisga, o outro o canivete de cabo de osso.
Ao longe veio um grito de mulher que trazía um nome, a passarada esvoaçou das árvores.
Correram em caminhos opostos.
Ele nunca soube explicar porque pintara o muro a branco-cal nem tão pouco a importância de cortar a aguarela a meio entre pássaros parados no céu e cascas de laranja junto ao limite da folha.





(in Telas, C.G. - Março/2005)

18 comentários:

Victor disse...

Querida Gasolina
Magnífico este escrito que explica muita da inspiração que tantas vezes se desconhece claramente a origem.

Beijinhos.

Abssinto disse...

Fantástico, g. ficou-me a visão de um esplêndido sol da cor das laranjas!

Arabica disse...

De cascas de laranja somos


muito rara e brevemente sumo de cal, na casa com os pássaros parados. Como o tempo?


Beijo bom fim de semana, Gasolina!

Gasolina disse...

Victor,

Se eu conseguisse fazer uma aguarela com palavras...

Obrigado.

Um abraço apertado Querido Victor!

Gasolina disse...

Abssinto,

Sol de fim de tarde, perto da hora do lobo.

Comer laranjas e não pensar em nada.

Beijos A.

Gasolina disse...

Arabica,

Como o sonho.
Ou os olhos parados no sabor de uma laranja sumarenta e doce. Como deve ser a vida.

Bom Domingo, beijos

O QUATORZE disse...

Olá
O tempo dita um momento de paragem ou acelaramento de uma imaginação fugaz.
Amizade
LUIS 14

Gasolina disse...

Luís XIV,

...Ou o contrário.

O tempo medido pelas paragens para ver ou o sonho veloz a consumir as horas.

Cada vez acho que é mesmo mais isto.

Fica bem

samuel disse...

E a vontade com que se fica de estar lá... cuspindo cascas de laranja?!
Muito bom!

Abreijos

poetaeusou . . . disse...

*
uma verdadeira,
arvore das palavras,
,
conchinhas de silabas, deixo,
,
*

Laura disse...

Lindo! Musical e sensorial...

triliti star disse...

fins de tarde. sem preocupações, por enquanto, que a idade é pouca, e outro dia virá e outros dias virão. e a vida ainda é bela...

pin gente disse...

as coisas doces são por vezes inexplicáveis

beijos

Gasolina disse...

Samuel,

Tomo as tuas palavras envaidecida. É gratificante saber que através de palavras se pintam imagens.

Abreijos!

Gasolina disse...

PoetaEuSou,

Obrigado pelas tuas águas, pelo sal, pelas conchas e pelo voo das gaivotas.

BEI/de MARÉ

Gasolina disse...

Laura,

Rabiscos de outros tempos, outras sonoridades, outras cores.

Beijo, beijo

Gasolina disse...

Tri,

Tudo isso.
Com tempo.
Com sentidos usados como sentidos bárbaros e verdadeiros.

Beijo grande

Gasolina disse...

Pin,

Pois são.

E temos o péssimo hábito de querer arranjar explicação para tudo.
Não basta por que é assim e nada mais?!

Um beijo a ti L.