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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Dias (sem medo)

 
Se por medo se por preguiça, encostei a vontade, deixei que a luta dos dias me amparasse sem a necessidade da escolha e o adiamento do confronto tranquilizou-me, deu a ideia de um comando sem precisar de ordem directa. Inquirida enderecei a resposta para tarefas inadiáveis, uma escassez de horas para o tanto a cumprir. Na verdade - e agora dona de mim e do meu tempo - adiei o inevitável, um regresso ao vício, à ausência dos dormires, o retorno à noite quando a luz se faz dia e nem mesmo neste a paz me aconchegou na dobra do lençol repuxado.
 
Chegavam não mansamente mas numa zoada de atenção exigida.
Todos ao mesmo tempo, cada voz mais nítida que a outra, todos reconhecidos e lembrados na angustia da minha pequenez, sobras de dias que lhes dedicava, nem um apaziguado.
Faziam relatos de coisas belas.
E mesmo conhecendo essas palavras porque havia sido eu a dizê-las primeiro, estranhava.
Uma dor funda empurrava-me o peito até o ar faltar, pedia mais, e agradada neste infortúnio aliviava, o oxigénio fluía de novo, pedia mais e mais, tomavam nos braços a minha vontade.
 
As linhas da escrita não me trouxeram calo. Faço-o com a intensidade do primeiro amor, mas sempre aprendiz, carrasco do que desenho e ligo em frases que parecem ser pouco para tanto dizer. Ou ver. Ou ser o que sinto, num medo da minha fragilidade se estilhaçar e romper as páginas de papel em que a mentira da falta de tempo se aguça em lâmina. Adiamentos ao espelho.
 
Como a árvore, estava morta ou estava viva.
E essa divisão clara e pura em que se foi ou sou, alinhava a nitidez dos que me chegavam.
Sem desculpas perdoei-me.
Olhei os medos e nada em mim me assustou.
Sou esse pouco de tudo.
 
Às vezes escrevo.


sábado, 6 de julho de 2019

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Está quase




Está quase...
E o desejo é tanto que até tenho medo.




domingo, 25 de novembro de 2018

À espera da árvore



Vou dizendo para mim que quando chegar o dia de estar junto à árvore vou ter tempo para contar tudo, uma jornada tamanha há-de fazer-se palavras e nesse dia, o tempo será a medida do meu contar, os séculos da viagem serão folhas a encher para um abrigo da memória, uma copa larga que me acolherá. Talvez feche os olhos no esforço de lembrar tudo, ou mantenha fixo num horizonte a lamber feridas que não saram. E conto.

Por agora, vou dizendo que não tenho tempo, engano-me no adiar das visitas, porque de tanto ter para dizer não o digo. As palavras vão-se murmurando em silêncios, faço ponto final onde não devia terminar, tento esquecer para o dia em que diga que vou ter tempo, e o receio desse momento a aproximar-se paraliza-me a mão, o saber contar, hesito memórias. Para quando chegar o tempo de contar.

Digo-me que quando chegar o tempo talvez não haja tempo de contar tudo.
As folhas serão de Outono, amarelentas e queimadas, um sopro de vento a esconder palavras ou a fazer chão pisado, eu mesma a desconhecer o que plantei sento-me, cansada da viagem e deixo a árvore apenas ser uma árvore.



sexta-feira, 13 de julho de 2018

(Ainda sem ) Paz





deixei de falar sobre estórias, livros, palavras que falam de palavras mágicas, bailarinas, coisa de palco, lançar os olhos no brilho do que não vejo vendo apontando no bico do sapato ou na ponta da caneta, deixei secar a tinta permanente na última carga e não gastei um cêntimo mais a comprar outras, sento-me no lado do cimento dos prédios e deixo o rio ser água, sem cor, sem manto, sem estrada, levo-me e regresso sem suspiro e sem lembrança, apago luzes que teimam de quando em vez fundirem páginas de clarões onde corro a azul e letras maíusculas se encavalitam falando de generosidade, liberdade, uma invenção que desconheço, não sei que dizer, não percebo o que dizem, não comento sentimentalidades que possam trair a voz ou devolverem perguntas sobre o que sinto ou sei, ou tenha sido ou perigosamente, tenha sentido ou até feito, não fiz nada e do sentir deixei-me, nem para estórias acordo, caio para dentro de mim e não sei porque não acho, porque não sei o que procuro.




quinta-feira, 12 de julho de 2018

Não é novo. É respirado.

Não me fui.
Não desapareci por doença ou falta de apetite à letra, de novo o tempo à esquina à minha espera para conversa pelos cotovelos, deu-me largueza para o lamento, para a lamúria, para as noites em que o queixo afundado abafou na fofura dos tecidos as vozes pertubadoras, calaram-se, fiquei sózinha, tão sózinha que as memórias de miados, latidos, chamados e nomes pequenos secretos se fizeram em companhia.
De novo a multidão.
A sórdida lembrança de coisas que se querem esquecer à força para não doer e se pedem para nunca esquecer, o comentário enrolado das palavras desenhadas na pressa num canto qualquer de papel, lábios apertados de boca cheia de velhos sentires, novos sentires, eu uma outra de casca rugosa, mas tanta fenda.
Dou por mim aqui, sem tempo. Foi-se-me. Que talvez nas noites de rolar para lá e para cá, à espera de um silêncio ou de ruídos conhecidos [seriam uns ou outros?] a esquina fosse uma metade que eu não quisesse escutar mais. Doia de mais escrever.
De novo a multidão.

Há quem regresse, respiro e estendo a palma apanhando a mão na direção da minha, outros não voltarão. Doeu não escrever.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Instantâneo - Episódio dezoito


 
 
Um gole, dois, três, meia chávena bebida e os olhos perdidos na folha branca, imaculada ausência, as palavras desfilam lentas porém certas num ritmo bom de as apanhar. Se quisesse. Por agora derreto-me por um qualquer sitio de não estar, vou bebendo sem descolar os beiços da louça a golinhos pequenos um instantâneo que será mais que isso, rápido no consumo, sinto o morno da aguadilha a descer pelas goelas e a tubagem à força de ser enganada agradou-se da miseriabilidade. Os gatos nos seus postos aguardam o inicio das manobras e nada, nem brincar com o elástico no pulso a entreter tempos de palavras que não chegam, não espero por elas ao menos, agarro-me à asa da caneca como salvação num prazer tão grande como uma página cheia a verbo fecundo. O fundo. Poupo o gole já quase frio, quisera que o cão viesse junto a mim, de cauda felpuda que não tem, não vem, penso no outro, bebo restos, afago o único gato que está. É tudo de fingir, até o café bebido rápido para não lembrar que é instantâneo.
 
 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ciências da natureza


 
 
Numa manhã, noite cerrada pela mudança de hora e enquanto esfregava as mãos surpreendido pelo frio à espera de boleia, viu um a riscar o céu amarelado pela luz artificial como um projéctil negro, um só traço a direito que desapareceu a caminho do breu. Depois, um par que ainda pipilou, notou-lhes um tom violento de vermelho nas asas quando florearam em rápidas piruetas em torno de um arvoredo, subiram, voltearam e de novo o negro, muito negro num fio único até a vista se tornar pouca e haver nada.
A seguir um silêncio de pessoa só.
E num susto toda a árvore que ombreava o candeeiro público pareceu erguer-se das suas folhas e subir aos céus como uma bola agitada e ruidosa, um alerta para o perigo eminente.
Agachou-se no medo súbito para logo se recompor, a vista ondeou ao compasso do bando que de um lado para o outro se moveu como uma massa mole mas ordenada, um desenho que tanto se alongava como se compactava até se adensar num brilho profundo de negro. Desapareceram rápido.
De novo o silêncio.
Depois o coração. Ouvia-o bater ritmadamente acelerado até que se abrandou numa quase solidão.
Um pardal saltitou por perto, debicando na noite invisibilidades enquanto um pio ou outro esmagavam o escuro.
 
 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Travessias do Rio - 13



Estável, como uma plataforma de cimento, balanço algum que me recorde que é o cacilheiro, por dentro nauseio-me de mares onde se afundam à força as dores de saudade, prometo, já prometi antes de embarcar, que este hoje não passaria de uma poça de água, um rasgão de chuva esquecida à espera de sol para a levantar e desaparecer evaporada sem nunca ninguém ter dado por ela.
A freguesia segue morta como habitual a esta hora, uma criança tamborila os pés no assento e grita de dedo apontado a gaivota sentinela, o paquete de costas, o mar.
 
Qual mar?
 
Logo tu para incomodares o meu sentido de travessia a este rio que hoje, eu prometi já disse, não é mais que estrada de cimento, fecho os olhos e aperto os dentes na onda que cresce cada vez mais alto até engolir-me, é um mar sim. Desta dor maldita que não passa e finjo por não falar dela e até a mim me proibir, que não mata e não existe e há-de passar. Como a distância entre as duas margens um dia há-de acabar.
A mãe acena a cabeça sorrindo, compõe a criança no assento e repete, é o mar sim.
 
 

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mais um, nem sempre soma


 
Mais um dia, mais um grão, mais um pedaço de pele, um bocado de calo endurecido, mais um traço, mais um risco que se passa na palavra enganada, mais um verbo calado, mais um dia de memória, mais papéis descobertos no semblante quadrado, mais um ano, contar estórias, contar a história da árvore que não é, mais uma folha, mais um ar, inexistências que se desengelham ao tempo do querer, mais um dia e talvez uma palavra boa. Quem sabe serei de verdade.
 
 

sábado, 1 de outubro de 2016

Até ser luz



 
Uma noite levantei-me, não foi diferente das demais, corredor fora atingi paredes de mãos espalmadas segurando o frio de uma solidão que não se explica, não se fala, engole-se aos pedacinhos até encher por dentro numa verticalidade que segure o corpo todo e mantenha a direito o que os outros veêm. Andei e a custo dobrei-me para apanhar um boneco da caixa de brinquedos, nem sequer o seu favorito, uma cenoura de borracha que apertava entre dentes e sacudia furiosamente enquanto rosnava quando eu ameaçadora lha tentava retirar, um bocado qualquer de brincadeira que rocei no nariz e me fez perder a parede, as paredes a caírem.
A luz nocturna coada pelos cortinados entornou-se pela árvore defronte da janela, no escritório os meus pés, as minhas pernas muito semelhantes a ganchos escuros nascidos do tapete enrouparam-se da lembrança da cauda do gato branco que gostava de se aninhar nos cadernos onde eu escrevia, um anel macio nos tornozelos a perdoar as maldades dos passos cegos.
Tacteei a gaveta na penumbra e o caderno fechado de vários meses.
Escrevi no escuro até ser luz.
Respirei até conseguir saber fazê-lo de novo, outra vez em tantas que já senti o deixar de sentir. As letras, muito mal desenhadas, estavam lá, deitadas e tortas, deformadas de uma solidão espalmada que não se explica, engole-se aos poucos à espera, apenas à espera.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Sangrar


 
Porquê hoje e não no dia a seguir ou até no dia em que a faca lentamente voltou a entrar e rodou no prazer da dor torcida entre a carne estragada e o insuportável das palavras que o berro atirou para a falta, um analfabetismo profundo de trambolho que acaba com a vontade do som do grito e o que se poderia dizer do grito por gritar ficou no mesmo ruído gutural em que o choro não se chorou e o verbo desfez-se dos prazeres, enfartou-se do adiamento até amanhã, até hoje em que as veias se engrossaram de tanto entupidas por dizer.
 
Que hei-de dizer?
Não escrevo a tinta, enxaguo as páginas do que me corre e duvido que chamem sangue à vida que leva os que amo, mais um, sempre um desfalque na seiva, apetecia-me correr a pontapé essa vida indecente que me leva as minhas da minha, já tão poucas as que verdadeiramente quero, cada vez menos as dos homens, por onde sangrar mais se a revolta me morde as palavras para logo me açoitar frágil numa saudade de chamamento por quem já não pode vir.
 
Que fazer quando o verbo abana a cauda e me lambe as mãos.

domingo, 26 de junho de 2016

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Bóris




O meu menino Bóris está muito doente e temo o pior.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Sem badaladas


 
Entre a véspera e agora, diferença alguma se faz, os olhos pestanejam a humidade bastante para seguirem mas o sono não dorme, o corpo não verga e a vontade de um e outro ou um ou outro se aconchegarem a ver se chega nem se quer na tentação se cogitam, avanço-me sem moléstias de contagem, mecanicamente o relógio encanta as paredes no fundo da casa a bater horas como um pássaro preso, muito bonito, mas dentro duma gaiola.
Quero lá saber, os dedos colados nas páginas brincam às mercearias, uma dose de letras bem pesada e uma dobra no cartucho para que não se vaze no grão, aparo linhas com retoques em A que se iniciam nos parágrafos muito deitados, comentários de quem me critica ao lado e encosta a orelha sem paciência para explicações de meia-tigela sobre a necessidade de me encher de coisas bonitas ao redor, para quê tanto detalhe?
E o desgraçado lá dentro a gemer, só, uma volta que fosse, até meia-volta que fosse na chave enfiada no furo e alimento bastante para gritar mais uma já lhe daría a força, mas fica-se, esganiça-se.
Termina-se na minha tinta todas as canetas. Todas as páginas e o caderno que ainda nem a meio vai. Talvez um pedaço de cansaço, um bocado de horas que não ouço.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Contradições



Há dias infindáveis que se desejam recortados do calendário, inexistentes, desmemoriados. Um acumulo de horas que não aproveita ao diabo porque tão pouco é do mal, é da ineficácia do tempo, do esgotante passar dos ponteiros a baterem no rosto sem que se sinta que houve vingança, vitória, um lampejo de coisa vencida, é correr sem saír do sitio e desgastar o chão até a terra nos cobrir a boca sufocando o grito de exaustão.
Há dias em que se pede o que não se diz.
Porque não se consegue aguentar mais o que se tem.
E porque só se conhece o que se tem quer-se o indesejável.

 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Esqueço-me que é Maio

 
 
 
Acontece que nem me risca que é Maio, dias houve em que serenava os olhos dizendo-me olha o mês do coração, sabía-me bem como um desejo de final do Ano, ando tão ocupada que me distraio do que me distraía, as linhas da poesia parecem assemelhar-se a carris de combóio que atravesso a correr enquanto o dito me sopra na queda humilhante a quatro encarvoada.
Acontece que me distraio com a organização dos outros, perdi a noção de encostar o queixo à concha da mão e deixar-me a ficar a sonhar com a esperança de voltar a ver o mar em breve, que Maio é esperança de Estio amornado, paixões novas paixões que mesmo das conquistadas sempre se renovam na descoberta, outras latitudes, desorganizadamente achava-me e perdida ría de mim.
 
 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Não me apetece mais



Cansei, fartei-me, já nem me apetece explicar as razões porque está mal ou bem, deixou de me interessar, porque ao fim de muitas batalhas a exaustão chega, a estupidez penetra e não há consolo na paciência.
Basta de vampiros a sugarem-me a informação na necessidade de só mais uma, só desta vez. Só na vez em que o analfabetismo grassa e se elege a incompetência enaltecendo o amarelismo do jogo duplo das [in]confidências [re]passadas em míticos fóruns que se querem para diminuta audiência impoluta que não passa cavaco à rataria incapaz de assimilar a ordem superior de quem se acha tão alto que precisa de o dizer.
Não quero mais brincar, não me apetece.
Fiquem com tudo, engulam e engasguem-se.
Chega.
Já disse, fartei-me de dizer o mesmo, contar, explicar, ajudar, inspirar e até cem aguentar por mais uma década, mas não há pulmão que não estoure de tanto encher e assim, retiro-me, não brinco mais, façam vocês os vossos jogos que eu estou-me nas tintas para tudo.
Não era isto que queríam?

domingo, 22 de maio de 2016

A imperfeição



Como sempre, à madrugada junto pertences e abalo-me, uma trouxa de pouca cousa que no regresso venho carregada de mais mas aliviada do que me vinca a testa, o sobrolho. Nem sempre trago certezas às duvidas com que subo a colina que se acrescenta de cada vez maior por cada etapa que a olho erguendo a cabeça para a admirar, de repente fico tão pequena e até as perguntas que levo se assemelham a respostas que já foram prestadas, uma lição que parece não ter aprendido, então repito e o caminho alonga-se solitário.
Mas é nessa quase desolação, na sensação de desemparo, que acabo a encontrar as costas do meu peito, uma ressonância de mim mesmo nos defeitos, imperfeições, inacabada de tanto que aos poucos me construo, me conheço, me pacifico no reconhecimento da estrada que refaço ao voltar, tropeçando, caindo e erguendo-me com a minha preciosa carga que sou eu posso carregar.

sábado, 21 de maio de 2016

Tudo deles, tudo meu


 
Deixando ou não fragmentos por lá, o que de maior interessa e me constitui enquanto verdadeira chega aqui. Ao que faço das palavras. Ou o que estas se impõem azulando-se nas páginas muito brancas do meu caderno. Uma liberdade prisioneira, uma vontade obrigada, um sabor a sangue, um querer estar sem saber quando foi e como foi que o soube, aprendi que as coisas que sei não vieram pelos olhos abertos, não todas, muitas chegaram pelas frases a desenvolverem-se ligeiras sem que o custo me tomasse a mão ou o cansaço das espáduas ou o exercitar da adivinhação, escrevi-as como se nascesse na experiência ou a morte me tivesse levado de todas as vezes que a levei a enterro.
E ainda era eu. E os mais que respiravam por outros tantos poros da minha pele, falas contínuas ou perguntas sem resposta, nada a meu tempo, tudo deles e ainda era eu. Mais livre que nunca, verdadeira.