Não escrevo em discurso directo.
Faço de conta que a terceira pessoa é outra de quem falo.
Não me apetece dizer-vos o que pensei, o que sinto e neste jogo posso sempre proteger-me na outra.
A outra é a mulher de quem falo, a que eu conheço como as palmas das minhas mãos e ainda assim apanha-me nas esquinas da surpresa e esbofeteia-me a ingenuidade de me encontrar sabida sobre quem ela é. A outra. Digo eu. Ela diz: A mulher.
Dá-me algum espaço para a comentar, dissertar-lhe os caprichos e as preferências, visiona-me, monitoriza os meus movimentos e as imitações que lhe faço, arregala-me os olhos quando avanço no defeito da teimosia, idéia fixa de jerico, procuro retoricamente o que sei me é proibido manifestando a minha sagacidade na arte de fingir.
A outra topa-me.
Estou proibida de falar em nome dela sobre o amor. As saudades. O fascinio que as dores da saudade provocam e nem sequer atravessar-me a cogitar sobre o que as palavras (não) agarram do sentimento de não saber explicar o que se sente. Ela sente, eu tento lógicas.
A mulher expia dos castigos do fingir a mão que me tapa a boca. A mão que me prende a minha mão na incapacidade de desenhar letras.
Isso não se diz, diz ela.
Sou a terceira pessoa do singular.