Todos os textos são originais e propriedade exclusiva do autor, Gasolina (C.G.) in Árvore das Palavras. Não são permitidas cópias ou transcrições no todo ou/e em partes do seu conteúdo ou outras menções sem expressa autorização do proprietário.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

(Texto)Tão banal como o riso

Às vezes tinha dias de riso. Daqueles que disparam por tudo e por nada, em que o nada era o mote e o tudo era a gargalhada colectiva. Meias frases eram o saca-rolhas que fazía saltar uma mente endiabrada e muito bem lubrificada pela progressão explosiva com que desenvolvía o motor de uma qualquer história arranjada à pressão, os outros uma achega, um fertilizante que impedía que o ponto final arrasasse o trabalho do aparelho vocal e da extensão e compressão das paredes abdominais. Nesses dias havía sempre sol. Era amarelo. E vía-se, redondo, como se costumava desenhar quando ainda se vestía bibe. Por todo o dia ría e mesmo inquirido sobre a graça achava graça à questão, encontrava-se mais sagaz nestes dias, apurado com soluções para problemas que se assemelhavam apenas e tão só a complicações. Depois os dias de riso começaram a rarear, ou não podía ou não devía ou não se lembrava ou não tinha vontade. Às vezes tinha dias que tentava rir como nos dias de riso mas não lhes achava piada nenhuma ou até se considerava um tolo. O sol ainda aparecía mas agora escaldava-o e até o amarelo o encandeava. Um dia parou de todo com o riso. Nem sol, nem soluções, nem facilidades nem amarelos. Só um grupo de homens velhos que o rodeava, cotovelada aqui, piscar de olho no outro, uma tosse incontrolável pelos cochichos trocados de como ele os fazía rir e sentirem-se felizes.